20 January 2009

por exemplo


Diálogos com a "Ex" — Mais uma vez sinto sua mão invisível sobre minha testa pedindo coisas impossíveis. Imagine um lugar perfeito: não está só ali o positivo das coisas. Mesmo não sendo possível "desexistir" alguém a gente puxa o tambueiro e vira a página. Ah, se fosse! (o mundo talvez fosse um pingado de gente). Você diz: que desconsolo! E eu nem sei porque não acredito em nada mas tento outra vez. Apenas respirar. Essa mulher que fala: não há nada para chorar! Soubesse ela riria por semanas de despeitado triunfo. Fico me perguntando se foi sarcástica ou se não. Soubesse ela (!) Eu gostaria pegar-lhe as mãos entre as minhas e dizer que muito embora ela não tenha sido amada quanto queria, foi tão feliz (apenas um palpite). Não foi? Porque presente nenhum anula uma boa lembrança. E porque a felicidade talvez a acompanhe de dentro. E coisa estranha de vê-la, esta mulher, despedaçada e bela, a desconsiderar uma felicidade já não mais infantil e partir em busca de uma alegria de cueiros. Vê-la achar-se vazia de algo que nunca teve mas não enxergar-se dona de algo precioso que ainda possui — talvez uma felicidade aprendida, talvez a capacidade de se auto-satisfazer não importa com quê (pode ser que das próprias ilusões ou do sentimento de mundo, pode ser de uma natural capacidade de amar). Ou terá sido infeliz...? Quem saberá? Eu penso que sobre a face da terra me amarga ver sofrimento. E já me pego a dar conselhos. Tens quase tudo, mulher. E não vês (são coisas que sempre digo a mim mesma). Mas estou tentando. Tentando aceitar. Valem todos os conselhos. Os que esqueci. Os que construo com pretensão de um mago. E os fúteis. Estou tentando. Entre outras coisas, reassimilar as palavras escritas para Maria da Graça. Esta semana minha mãe me estendeu a pequena cópia que lhe enviei há alguns anos. Mãe: quem te mandou o texto fui eu! E ela queria que o lesse. Eu sorri. Porque julguei que não tivesse dado valor algum. Mas ela também o guardou por anos. Mãe: esta é minha crônica perfeita. Meu conto de cabeceira. Meu novo e antigo testamento. O texto que tento materializar em mim desde meus dezesseis anos tendo sido desde então e tantas vezes a mesma Maria. Só faltou nele um ditame. E as horas de desespero? O que fazer delas? Gastam-se todos os humores. Todos. O que fazer com as caixas vazias? Estou tentando desenterrar algum tipo de humor. Repetir sem voz pra mim (na voz de um caro amigo) que os dias serão melhores. Quem acredita? Estou tentando. O mundo é uma panacéia nascida de mente insana e ácida quando mais se precisa sanidade para respirar. Vai melhorar. Vai melhorar. Porque tudo passa. Há de passar o ruim. O bom chegar. E talvez eu seja forte de novo. Diante do ruim não mais cortar os pulsos. Quem sabe. Quem sabe não precisar marginalmente de tantos e tanto dos outros e assassiná-los todos em busca de salvação. Não há mesmo motivos pra chorar. Mas a gente chora. (2007)
Art:Rene Magritte "La Trahison des Images"

tempo

O tempo passa varrendo — é um tufão invisível. Perdoa nem realidade virtual nem fantasia. Passou um-dois-três anos e descobri o assalto no meu tempo. Minha identidade cibernética virando pó. Mas e daí? Peguei o trem, voei de avião, fui fazer outras coisas. Hoje, fazendo faxina eletrônica percebi parte da memória que só existe no "external hard drive". Fui eu que escrevi? Lorota! Bom, fora a mídia, o baú de lembrança é o mesmo. Às vezes passa o tempo e assopra as letras, embaralha as idéias e deixa um tipo de rastro qualquer. Nem sempre dá pra se fazer uma ciência forênsica com o pensamento. A intenção do autor foge dele próprio. Sei lá. Eu rio. Queria estar na praia comendo areia e palavra de outros. Mas encontrei umas pérolas de desgostos passados. E hoje são quase engraçados.

18 December 2006

neruda amanhece *

''Quem separa o ontem da noite e do hoje que emprenhava sua taça? E que lâmina de água incessante ou de bronze roído ou de gelo impediu que acudisse meu peito às chamas que me procriaram? E quem sou? Pergunto às ondas quando enfim naveguei sem navio e pude me dar conta que o mar eu mesmo o levava nos olhos. (...)"

[... eu anoiteço; todo o resto me abandona; e todos; o mundo é um grande mar aberto sem bússola]


...
(*) Manchete de um comentário de Flávio Viegas Amoreira / Trecho de Neruda/ Figura do artista João Mak http://joaomak.net/

15 December 2006

ho ho ho

...

...

Quem não estaria? ; )
Feliz Natal!

10 December 2006

tOut!

"Tout élan de mon esprit commence dans mon sang"
[ R a i n e r ..M a r i a ..R i l k e ]

(...) " terão começado hoje, amanhã, aujourd'hui, toujour; não há mais o tempo como o conheci/ deitamos a cabeça sobre plumas; me perguntou: "por que?"; e eu digo: somente pra fazer o sangue fluir como uma lava doce! pois precisávamos; voando com as asas de um pássaro negro, as mesmas do anjo negro nos consumindo/ eu deitei nesta cama; precisava queimar; faz calor insuportável e hoje é lua cheia; um céu cheio de luas/ por dentro um lago fervilhando, quente, frio, não conheço mais o tempo/ o que conheço? um compasso; uma palavra pulsada?/ e então soou o risco afiado del acordeón; ríspido; precisava sonhar e sonhava/ o tango surgiu como um grito vindo de dentro; não mais parou/ a batida insistente do tango ressoou noites inteiras; e continuou a tocar por dentro."
Meu sangue, minha palavra, meu salto no escuro, quem saberá?/ Já que as criaturas mitológicas se esconderam por detrás da lua, responde minha virtuo-conterrânea: o sangue sabe-o! AHHH.... só me resta suspirar/ E clamar: Gotan! (não o vampiro, exilado, mas a marcha musical); Santa Maria! (minha derrocada inútil para além dos muros de Fiji)/ Quando me espera o emissário apocalíptico? como era? "até que o seu fogo veemente nos consuma sem a consumir" diz ela / Que me consuma! Eu espero sentada a próxima lua (tão despeitada quanto Nietzsche, me proclamo brasa e carvão a um só tempo).

Ilustração mundana: "Carmine Café" de Bill Brauer. Trilha sonora: Gotan Project! (no último). A supracitada: Cecília! Meireles.

05 December 2006

...

A lua está cheia...

03 December 2006

eles


( ... ) Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira; ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
"Por não estarem distraídos" de Clarice Lispector
[ Picture: "Beijo" de Rubens Gerchman ]

02 December 2006

oe


Poesia lenhosa... (é nome de livro)
/preciso de mais minutos/

nOt

porque tem dias que
é melhor "não"
"Not Now" by Will Fowler

fOm!

" — Lancinante é quando o mal vem acompanhado de surpresa. Porque coisa ruim já não é bom. Imagina ser pego de calças na mão! (ninguém há de merecer). Depois, pra além do desgosto, a decepção humilhante de saber-se enganado. Constatado o fiasco do seu intelecto. Mais tarde ainda a assanhada raiva frente-a-por-causa-da cósmica traição. E o desterro do objeto de crença lançado ao mar da sua pueril vergonha. Morre fé infeliz! Morre confiança inverossímil! Morre desgraçada — obtusa ilusão desfeita num tropeço em praça pública! Morre, que a multidão de invisíveis superegos ri de ti até molhar as invisíveis ceroulas. "
...
"fonobrejo e lengalengas" ou "o grito" ou "lamúria das tralhas sensíveis";
["Homem, esquece!" já dizia Nietzsche] [ data indeterminada e 'inexpirante']

18 November 2006

sublimação


"Pelo amor de deus/ Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem/ Não vê que deus até fica zangado vendo alguém/ Abandonado pelo amor de deus/ Ao nosso senhor/ Pergunte se ele produziu nas trevas o esplendor/ Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor/ Criado pra adorar o criador/ E se o criador/ inventou a criatura por favor/ Se do barro fez alguém com tanto amor/ Para amar nosso senhor/ Não, nosso senhor/ Não há de ter lançado em movimento terra e céu/ Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel/ Pra circular em torno ao criador/ Ou será que o deus/ Que criou nosso desejo é tão cruel/ Mostra os vales onde jorra o leite e o mel/ E esses vales são de deus/ Pelo amor de deus/ Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem/ Não vê que deus até fica zangado vendo alguém/ Abandonado pelo amor de deus..."
...
Hoje decorri mergulhada na voz de Maria Rita... Música move, embala. E eu desejava faze-la brotar aqui.
...
Como ressaltou Wisnik na leitura do belo conto de Guimarães Rosa: palavra é som; o próprio som, poesia. A letra de Chico e a música de Edu Lobo juntas são duas, três vezes poesia. Na voz de Maria Rita.. quatro, cinco, dez vezes poesia. E se coincide com nossa voz interior... é poesia incalculável. Estava certo o poeta... a música é uma forma de oração. Sobre todas as coisas. Sim. Estrela. Estrela. Criador. Criatura. Fantasia. Em mim: saudades.

...



"Estrela, estrela... / Como ser assim...?/ Tão só, tão só.../ E nunca sofrer./
Brilhar, brilhar/ Quase sem querer/ Deixar, deixar/ Ser o que se vê./No corpo nu da constelação/ Estás, estás sobre uma das mãos/ E vais e vens como um lampião/ Ao vento frio de um lugar qualquer./ É bom saber que és parte de mim/ Assim como és parte das manhãs./ Melhor, melhor é poder gozar/ Da paz, da paz que trazes aqui./ Eu canto, eu canto/ Por poder te ver/ No céu, no céu/ Como um balão/ Eu canto e sei que também me vês/ Aqui, aqui com essa canção." [Vitor Ramil]
...
"ps's": 1. "O Recado do Morro" de Guimarães Rosa, com toda a profundidade da obra deste, é de ser lido duas vezes à sombra de uma palmeira; 2. Da série 'Grandes Cursos Cultura Na TV', a preleção do genial músico e ensaísta José Miguel Wisnik vale a pena ser ouvida até de olhos fechados pra se saborear bem (e é de graça! http://www.tvcultura.com.br/default.aspx ); 3. Creio que Vinicius me perdoaria por estender a religiosidade para além do samba; 4. Tentando encontrar a transcrição da palestra de Wisnik descobri um assombro. Anos atrás uma das apresentações que mais marcou a existência dos meus sentidos foi a dança mineira do Grupo Corpo encenada no Palácio das Artes de Belo Horizonte. Perfeita. Na trilha, composições de Ernesto Nazareth, um dos meus prediletos (!); e não é que tinha um dedo (e o cérebro) de Wisnik também ali? 5. Sacralidade, pra mim, é isto, coincidência de preciosidades: Minas; Ernesto; Wisnik; Corpo; Rosa; Palavra; Chico; Edu; Maria; Ramil. Um compêndio de divindades. Só assim me ajoelho... e rezo; 6. Prece... involuntária decorrência de momentos de êxtase?; 7. A imagem é de Isabella Rosellini... cuja beleza inspira tanto quanto música.

14 November 2006

just perfect

daisies blow by koen http://www.flickr.com/photos/d_oracle/


We'll do it all / Everything / On our own □ We don't need / Anything / Or anyone □ If I lay here / If I just lay here / Would you lie with me and just forget the world? □ I don't quite know / How to say / How I feel □ Those three words / Are said too much / But not enough □ If I lay here / If I just lay here / Would you lie with me and just forget the world? □ Forget what we're told / Before we get too old / Show me a garden that's bursting into life □ Let's waste time / Chasing cars / Around our house □ I need your grace / To remind me / To find my own □ If I lay here / If I just lay here / Would you lie with me and just forget the world? □ Forget what we're told / Before we get too old / Show me a garden that's bursting into life □ All that I am / All that I ever was / Is here in your perfect eyes, they're all I can see □ I don't know where / Confused about how as well / Just know that these things will never change for us at all □ If I lay here / If I just lay here / Would you lie with me and just forget the world?
[ 'chasing cars' by snow patrol]
...
From what's left of my heart... thank you.

qui?

" (...) Con alivio, con humillación, con terror , comprendió que él también era una apariencia, que otro estaba soñándolo."

(...) Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que era também aparência, que outro o estava sonhando. /'Las ruinas circulares'; Jorge Luis Borges/

12 November 2006

sim

sim, nós sabemos.
[verdade capturada pelas lentes de 'Bart'; http://www.olhares.com/bartigno]

10 November 2006

som

Attadīpā viharatha
Attasaranā anaññasaranā

08 November 2006

mas

Vamos, não chores./ A infância está perdida./ A mocidade está perdida./ Mas a vida não se perdeu./ O primeiro amor passou./ O segundo amor passou./ O terceiro amor passou./ Mas o coração continua. Perdeste o melhor amigo./ Não tentaste qualquer viagem./ Não possuis carro, navio, terra./ Mas tens um cão. Algumas palavras duras,/ em voz mansa, te golpearam./ Nunca, nunca cicatrizam./ Mas, e o humour?/ A injustiça não se resolve./ À sombra do mundo errado/ murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias/ precipitar-te, de vez, nas águas./ Estás nu na areia, no vento... (...)

['Consolo Na Praia' by Carlos Drummond de Andrade] [E bela foto de 'Bart'; http://www.olhares.com/bartigno]

saudade

...
" Tenho saudade de mim mesmo, / saudade sob aparência de remorso, / de tanto que não fui, a sós, a esmo,/ e de minha alta ausência em meu redor./ Tenho horror, tenho pena de mim mesmo/ e tenho muitos outros sentimentos/ violentos. Mas se esquivam no inventário,/ e meu amor é triste como é vário,/e sendo vário é um só. Tenho carinho/ por toda perda minha na corrente/ que de mortos a vivos me carreia/ e a mortos restitui o que era deles/ mas em mim se guardava. A estrela-d'alva / penetra longamente seu espinho/ (e cinco espinhos são) na minha mão."

...

Credits: http://www.flickr.com/photos/98301161@N00/ 'Floating Down' by Will Fowler ; 'Estrambote Melancólico' by Carlos Drummond de Andrade; 'Hands Copy' by Ghosts of Angels http://www.flickr.com/photos/chrispm/

07 November 2006

z

/ time after time... só a voz de chet baker pode me curar/

05 November 2006

y

Ah, insensatez que você fez/
Coração mais sem cuidado/
Fez chorar de dor o seu amor/
Um amor tão delicado


Cravou um punhal no meu amor, como nos filmes. E veio rasgando palmo a palmo. Cirurgicamente. Sem piedade. Natural como um bicho comendo outro bicho. Um ciclo. Cada coração lutando a própria sobrevivência corpo a corpo. Eu aceito — a carnificina necessária frente à desilusão e o desencontro. É preciso não ter dó; assassinar a punhaladas mesmo. Como animais. Em que o gesto mais violento nem sempre faz sangue ou nos quebra os ossos. Basta uma ausência com força de explosão atômica aniquiladora e já viramos pó. Basta incompreensão do tipo agudo sem defesa. Basta um desalinho de órbitas e queimamos no contato da estranha atmosfera. Outra vez carne e fogo. Outra vez pó. Na vida como nos filmes, esta fatalidade fortuita: e quem nos conduz emoção e pensamento? Não sei. Porque andam sós; emancipados; sem nos prestar satisfação. E vez ou outra saem por aí cometendo crimes de amor ou desamor; tão cruel quanto ingenuamente. Com o punhal cravado no peito lembro esta verdade tão serena. Eterna. Em que não há pecado ou culpa. Onde a gente morre amparado de certo perdão. Nós mesmos a nos redimir morrendo. De forma tão dolorosa ou mais — morte é sempre morte. E ela sempre vem. Aos poucos ou assim grotesca; nos dilacerando e expondo vísceras e alma aos urubus.
insensatez
nossa de cada dia
/ao alto: música de vinícius/

18 October 2006

x

Uma nova forma de ver. Um olhar. Meu olhar.